segunda-feira, 27 de março de 2017

É preciso estabelecer metas aos profissionais que lidam com dependentes em SPA


Sem uma referência adequada de como trabalhar corretamente, esses profissionais continuarão impossibilitados de assistir, acolher, restaurar e reinserir os dependentes químicos com sucesso!




Para que o tratamento de dependentes de Substâncias Psicoativas (SPA) tenha resultados positivos, é preciso garantir um amplo entrosamento de todos os segmentos que têm conhecimento e experiência nesse tipo de enfermidade. Ou seja, nos assuntos pertinentes à drogadição, precisamos de uma atuação em rede por parte de todos que têm a obrigação de assistir, acolher, restaurar e reinserir os dependentes químicos.
Penso que uma forma de comprometer definitivamente todos que trabalham na área de restauração de vidas é a promoção de uma política de trabalho focada na responsabilidade pelo cumprimento de metas. Estas precisam ser estabelecidas e atingidas urgentemente pelos gestores das políticas públicas para programas de restauração de vidas ou ressocialização de presos.
A restauração de vidas, que antes era banalizada e rechaçada, vem ganhando espaço. Isso porque ao longo de mais de três décadas provou sua viabilidade: sim, é possível sim restaurar vidas. Entretanto, não é fácil. Trata-se de um processo demorado, dolorido e dispendioso. Por essa razão, todos os gestores e suas equipes devem ser comprometidos com metas, que devem ser respeitadas e cumpridas.
Lógico que não estamos falando de objetivos aleatórios, mas de um percentual que ao longo dos anos têm se confirmado como perfeitamente possível de ser atingido por dependentes ou delinquentes, sobretudo devido à contribuição de gestores que têm know-how no assunto. Aliás, nenhuma decisão nessa área pode ser tomada de forma aleatória.
Pela vivência adquirida na área de dependência química e delinquência, acredito na imperiosa necessidade de se estabelecer o cumprimento de metas como umas condições sine qua non para garantirmos êxito e evitarmos os desperdício de vidas e do dinheiro público com as políticas e programas para restauração de vidas de dependentes em SPA, assim como a ressocialização de presos.
Quem atua na área com seriedade, sabe que é possível ressocializar a grande maioria dos presos. É o que confirma a especialista em políticas de amparo ao preso, Dra. Lúcia Casali, que trabalha há mais de 30 anos lidando do delinquentes. Segundo ela, até 70% dos detentos podem ser recuperados se tiverem a chance de estudar e trabalhar. Isso, por sua vez, ajudaria a diminuir a superlotação nos presídios. Por analogia, poderíamos transportar esse índice de 70% que Casali assegura ser possível atingir na restauração de pessoas que cumprem penas pela práticas dos mais diversos crimes, para o dependente de SPA? Sim. Esse percentual pode e já foi aprovado com êxito dentre os dependentes em SPA de baixa renda.
Quem tem know-how na área de dependente de baixa renda sabe que existe um caminho natural que esse paciente vai percorrer dentro do complexo e perigoso labirinto das drogas. Por quê existe esse caminho sinistro? Porque um indivíduo pobre e sem trabalho, tendo que bancar os custos do vício, vai se embrenhar pelos caminhos do vício ou da prostituição. Esse é um dos abismos que separa meninas e meninos ricos dos pobres. Os primeiros podem contar com seus pais ou seus prepostos, que se disponibilizam a administrar toda a parte financeira que envolve o risco no convívio do dependente com as pessoas ligadas ao tráfico, evitando o contágio. Já os segundos, sem recurso algum, aderem ao crime.
Outro fator importante é que adictos têm que saber que há um futuro diferente para eles e que devem se subordinar a um programa de restauração de vidas. Não interessa se esse programa acontecerá em regime de internato ou regime aberto. Uma vez diagnosticada a necessidade do tratamento, ele precisa ser feito. Há autoridades públicas que são responsáveis pela fiscalização para evitarmos possíveis excessos e garantir que os direitos fundamentais sejam garantidos. Isso sim está garantido num processo democrático pela nossa constituição, mas não são cumpridos para com os dependentes de baixa renda.
Por essa razão, temos que lutar persistentemente para que haja fiscalização efetiva por parte do poder público, a fim de salvaguardar os direitos dos mais necessitados. E para reforçar a garantia da segurança, por certo, é importante que seja criado um serviço de Disque Denúncia específico para denunciar abusos e facilitar a apuração dos mesmos.
Ontem recebi a mãe de um dependente menor de 17 anos, com raquitismo, a ponto de esse adolescente ter a aparência de uma criança de 12 anos. Ela protocolou um pedido na Justiça solicitando permissão para o internamento compulsório para seus dois filhos em 2012, no Fórum Regional da Lapa, mais precisamente na Vara da Infância e Juventude. Passados mais de um ano, após essa mãe perder o filho mais velho e o mais novo se encontrar numa situação deplorável, a Justiça ainda não providenciou o internamento desse menor que restou. Quem responderá pela vida desse adolescente?
Justiça morosa na minha opinião não é apenas injustiça. O destinatário do pedido e quem mais possa está contribuído para procrastinar esse pedido e milhares iguais a esse deveriam responder pelo crime de omissão de socorro seguido de morte. E sabe por que ninguém responde pelas tragédias acometidas a essas pessoas? Porque elas não têm representatividade social nem política. E essa categoria de pessoas não tem nenhum outro valor para mídia, que não seja fazer parte da estatística de morte que, ajudar a vender mais notícias.
Portanto, não vejo outra forma que não seja o compromisso com metas, com percentuais definidos para equilibrar o desempenho dos funcionários públicos que atuam nessa árdua área. É imprescindível que o direito à vida preceda a qualquer outro direito. Ou seja, ao direito a vida há de se submeter todos os demais. No Brasil, a saúde mental carrega uma grande macula e há uma pendência horrorosa e secular para com esse tipo de paciente. E para que o mesmo não aconteça com as vitimas da dependência em SPA, precisamos enfrentar e gerir adequadamente cada passo dos programas de restauração de vidas para garantir que tenho começo, meio e fim.
Tudo isso pode e deve ser feito, começando pelos Centros de Atendimento Psicossocial (CAPs), que precisa urgentemente de uma releitura dos seus objetivos e principalmente nos seus procedimentos, sob pena sim, dos CAPs se consolidarem, principalmente nas grandes metrópoles, como manicômios abertos, o que desonerará o Estado dos custos e das responsabilidades sob a segurança e a vida desses pacientes. Fato muito comum num país que banaliza as tragédias de pessoas de baixa renda, mas que deve ser repudiado principalmente nas grandes metrópoles sob pena de autorizar o Poder Público de usar o nosso dinheiro para programas higienistas e eleitoreiros.
Sem esta conscientização por parte dos governantes, da sociedade civil e dos profissionais da área, é o mesmo que tentar enxugar gelo com o dinheiro público. O resultado será, lamentavelmente, apenas mais cadáveres (lembrando o renomado jurista argentino Rául Zaffaroni). Quem conhece as características do crack sabe que as consequências desse tipo de droga são velozes e devastadoras e há um contingente de crianças, adolescente e jovens que já foram vitimados e outro tanto está na iminência de morrer precocemente se nada for feito para protege-los.
 Recomendo esse vídeo que corrobora a matéria.
Programa Claudio Alves Sem Censura - Sr. Lúcia Casali - Diretora executiva da Funap- 01/05
Maria da Conceição Damasceno Cinti. Advogada e educadora. Precursora da Educação Restaurativa, com experiência de mais de três décadas em Tratamento de Dependência em Substancias Psicoativas e Delinquência  Juvenil e de adultos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário